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5 estratégias para promovermos uma vinculação saudável com os nossos filhos 5 estratégias para promovermos uma vinculação saudável com os nossos filhos

5 estratégias para promovermos uma vinculação saudável com os nossos filhos

O que é a vinculação e que papel tem no desenvolvimento saudável dos nossos filhos?

A qualidade dos laços afetivos que a criança estabelece com os seus cuidadores principais, designados de relações de vinculação, constitui um dos aspetos mais importantes no desenvolvimento infantil e ao longo da vida. A vinculação nos primeiros anos de vida traduz-se num conjunto de comportamentos que tem como objetivo a proteção do bebé. O papel das figuras de vinculação é dar segurança à criança quer a nível físico, quer emocional.

As figuras de vinculação são aquelas pessoas especiais que o bebé/criança procura e confia, sobretudo em situações em que sente que precisa de conforto ou proteção. As crianças desenvolvem vinculação às pessoas chave na sua vida: aos seus cuidadores principais, como mãe e pai, mas também outras pessoas importantes na sua vida como avós e educadores do jardim de infância.

casal com bébé   

5 estratégias para promovermos uma vinculação saudável com os nossos filhos:

1) Tempo de conexão /ligação: o papel da sincronia entre mãe (ou outro cuidador) e bebé

Quer o seu filho seja um bebé de meses quer já esteja em idade pré-escolar, ele precisa muito de se sentir ligado às suas figuras de vinculação. 
Falo de momentos de intimidade, de calma em que sentimos que estamos a falar “a mesma língua” que os nossos filhos.
Não precisa de ser algo complicado nem sequer demorado – são pequenos momentos ao longo do dia em que paramos um pouco com a azáfama do que temos a fazer e simplesmente ouvimos o que eles têm para dizer, mostramos interesse naquilo em que eles estão interessados, respondemos e damos oportunidade a que eles nos respondam a nós.
Se passamos uma grande parte do dia longe dos nossos filhos (por exemplo no trabalho) torna-se muito importante dar-lhes oportunidade para re-conectar connosco quando chegamos a casa (já se perguntou porque é que as crianças têm dificuldade em acalmar ou dormir sozinhas quando estiveram longe de si todo o dia?).
A investigação mostra que esta sincronia na interação com os nossos filhos está intimamente ligada a uma vinculação segura e a níveis mais baixos de stress nas crianças. 

Dica: Brinque, converse, dance com o seu filho... qualquer atividade em que estejam os dois focados na mesma coisa e em comunicação um com o outro (mesmo que seja sem usar palavras...).

2) Ajudar a regular as emoções: um trabalho a dois

As figuras de vinculação têm um papel crucial na regulação emocional das crianças. Enquanto crescem, as crianças deparam-se com a necessidade cada vez mais exigente de lidar com situações que despoletam sentimentos de incerteza, tristeza, frustração etc.
As crianças podem sentir estas emoções de forma muito intensa, sobretudo no período entre o primeiro e terceiro anos de idade em que estes sentimentos são tão novos e confusos. A criança pode por vezes sentir-se incapaz de gerir estas emoções, e nem sempre é capaz de as expressar em palavras. Contrariedades pequenas podem levar a grandes birras.
Por isso é importante que os adultos à sua volta apoiem esta aprendizagem gradual de gerir as emoções, já que elas não estão capazes ainda de o fazer sozinhas. Por exemplo, pode ajudar nomearmos a emoção que achamos que a criança está a sentir e perguntarmos se está de acordo (por exemplo, “eu acho que estás zangado/ triste porque... achas que é isso?”).   
Quando temos de fazer algo ou proibir a criança de algo que despoleta uma emoção negativa, geralmente ajuda explicarmos que compreendemos que isso é difícil, mas que tem de ser assim (por exemplo, “eu sei que gostavas de brincar com o brinquedo daquele menino, mas não é teu por isso não pode ser”). Neste tipo de situações de proibição também pode ajudar darmos uma alternativa aceitável para ambas as partes (por exemplo, “não podes fazer/ter isso, mas podemos fazer antes aquilo...”).

Dica: não negue ou negligencie as emoções do seu filho – mesmo que para um adulto algumas reações negativas pareçam exageradas e haja a tentação de dizermos que “isso não é nada, não tens razoes para estar triste”, para eles a emoção é real e devemos tentar ver a situação do seu ponto de vista para que sintam que as suas experiências emocionais são válidas. Isto é muito importante para que a criança se sinta valorizada. 

3) A importância das rotinas e da consistência: ajuda a sentirem-se seguros e a reduzir as birras

Há crianças mais sensíveis a mudanças na rotina que outras. No entanto, a previsibilidade é um fator muito importante para todas elas.
Um mundo previsível é reconfortante e não requer tanto ajustamento de expectativas por parte da criança, o que ajuda a evitar as emoções fora do controlo e as birras. Por outro lado, esta previsibilidade ajuda os cuidadores também, porque fica muito mais fácil percebermos se aquilo que parecia uma birra despropositada é na verdade sono ou fome, por exemplo.

Dica (se tem um bebé pequenino que ainda exige cuidados constantes): procure aqueles momentos em que mais desfruta do seu bebé – como logo a seguir a mamar/tomar o leite ou o momento do banho; desfrutar dos pequenos momentos de prazer com o seu bebé irão ajuda-la/o a si a ultrapassar os momentos em que se sente mais em baixo ou exausta/o.

Dica (se tem uma criança entre 1-3 anos de idade): nestas idades manter algumas rotinas, sobretudo relacionadas com quem toma conta dela e as horas do sono, facilita o bem-estar da criança e da família. Mas irão existir sempre momentos difíceis e neste período do desenvolvimento é mais importante que nunca tentar manter a calma, ser previsível e compreensiva/o, mesmo quando se sente frustrada/o. As crianças tendem a espelhar ou copiar as reações e comportamentos dos adultos à sua volta. 

4) Apoiar a exploração do mundo: deixá-los liderar para desenvolverem competências e autoconfiança 

As crianças aprendem através da exploração. E a exploração está muito ligada à vinculação porque a criança só consegue explorar de forma eficiente se se sentir reassegurada pelas suas figuras de vinculação. 
Quanto mais apoiada se sentir pelos adultos à sua volta, mais a criança terá vontade de conhecer o mundo e tentar perceber como as coisas funcionam – isto é aquilo a que chamamos brincar!
Mas existe uma questão essencial na forma como damos este apoio. Nós devemos deixar a criança liderar a brincadeira e tomar iniciativa acerca do que e como quer brincar.
Ao darmos espaço para explorarem com autonomia, estimulamos as suas competências e a sua autoconfiança. Nós estamos lá para acompanhar, responder, olhar quando eles apontam e sorrir quando eles sorriem, comentar quando eles nos entregam um brinquedo e utilizar os seus interesses para lhes ensinarmos sobre o mundo à sua volta.
E ao recebê-los de braços abertos sempre que nos convidam a participar estamos a comunicar-lhes que estamos interessados nas suas atividades, assim como são sempre bem-vindos a regressar ao nosso “colo” se se sentirem cansados ou assustados. 

Dica: quando o bebé/criança esta concentrado e satisfeito a explorar um brinquedo, fique a observá-lo de perto e deixe que seja ele a procurar a sua participação na brincadeira. 

 5) Lidar com as separações: como reduzir a ansiedade associada ao adeus 

Todos temos alturas em que temos de nos separar dos nossos filhos. Ou porque vamos sair e deixá-los com alguém, ou porque vão ficar no jardim de infância, entre outros.
Os momentos de separação das figuras de vinculação são difíceis para as crianças porque significam deixar aqueles que elas mais confiam precisamente quando mais precisam delas (para ajudar a gerir esse mesmo receio de ficar sem elas)! Por isso é que as separações são mais fáceis de gerir quando a criança fica com outra “pessoa chave”, assim como quando a criança percebe que há previsibilidade no que vai acontecer e no regresso da sua figura de vinculação.
Por exemplo, os primeiros dias no jardim de infância podem ser vividos com angústia, mas com o passar do tempo a criança aprende o que esperar do seu dia e confia que os cuidadores vão regressar para a vir buscar no final do dia.
Como as situações de separação despoletam medo na criança, é essencial que os cuidadores lhe transmitam confiança e tranquilidade, e não prolonguem a despedida mais do que o necessário. Se a criança percebe que o adulto está receoso e inseguro acerca de a deixar, ela vai sentir que então tem mesmo razões para ficar assustada e que a situação em que a estão a deixar não é segura. Ela vai olhar para as suas figuras de vinculação para procurar pistas sobre como se sentir com a separação.   
Se a criança tiver experiências de separação positivas, isto é, mesmo que gerem alguma ansiedade são geridas com confiança, ela vai sentir-se mais competente, eficaz e autónoma – ferramentas que lhe serão muito úteis ao longo do desenvolvimento. 

Dica: se tiver de deixar o seu filho com familiares ou educadores, explique-lhe o que vai acontecer (mesmo que a criança ainda não fale), assegure-lhe que vai voltar para o vir buscar e saia sem prolongar a despedida.  

Espero que ache estas informações e dicas úteis. Acima de tudo lembre-se que é a pessoa (ou uma de poucas!) mais importante na vida do seu filho e sempre que fizer o melhor que sabe, está a fazer o suficiente!  

Bons mimos! 

Dr. Paula Oliveira
Psicóloga especializada em desenvolvimento
Doutorada pela University College London, leciona nessa universidade e é investigadora no Anna Freud National Centre for Children and Families em Londres
Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses e da British Psychological Society.  

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